Casamento cristão

Casamento cristão

Já ouvi pastores conservadores recomendando a leitura de C. S. Lewis. Autor inglês, vivenciou a guerra e pode sentir os horrores da situação. Durante a II Guerra, proferiu algumas palestras na BBC. Tratava-se de um programa de rádio onde ele levava algumas reflexões teológicas para os ouvintes, em grande parte das vezes contextualizada para o momento de conflito e incertezas.

Um de seus livros, intitulado Cristianismo puro e simples, é uma coletânea dessas palestras. Nele Lewis fala sobre o casamento cristão. Ele diz que teria dúvidas se o modelo de relacionamento heterossexual e monogâmico, privilegiado pelos cristãos, seria uma obrigação para aqueles que não aceitam a fé. Seria legítimo a uma comunidade de fé querer impor esse padrão de relacionamento para outros grupos da sociedade? Notem, Lewis estava falando isso na déc. de 1940.

Uma dúvida me acompanha: por que será que pastores tradicionais recomendam a leitura desse autor, mesmo quando ele expressa essa posição em uma área tão sensível para muitos evangélicos? Será que são tão conservadores assim? Será que concordam com Lewis mas não podem manifestar isso em público?

Tendo a pensar por outro caminho. Em alguns casos, eu arriscaria uma resposta para o fato de o texto ser recomendado: a grande quantidade de metáforas relacionadas ao contexto bélico. Lewis em vários momentos menciona a guerra, o conflito, o sacrifício, a morte, a voz de comando, a batalha, a invasão. Um vocabulário que remete ao contexto no qual estava vivendo.

Esse tipo de discurso belicista está presente em grande parte dos púlpitos evangélicos no Brasil. Meu palpite é que essa estrutura textual ajuda a moldar a visão de mundo dos crentes. Molda também sua sensibilidade diante dos fatos. “Matemos, pois eles estão ameaçando nossas crianças!”. Ou de forma menos drástica: “São as consequências do pecado”. Obviamente essa não é a mensagem cristã. Pode ser bíblica, mas não de Cristo.

* Os textos publicados pelo Observatório Evangélico trazem a opinião e análise dos autores e não refletem, necessariamente, a visão dos demais curadores ou da equipe do site.


João Barros  é doutor em Filosofia (UNISINOS) e doutor em Ciências Sociais (UBA-AR). É autor de Poder pastoral e cuidado de si em Michel Foucault (2020) e Biopolítica no Brasil – uma ontologia do presente (2022), dentro do qual aborda o racismo de Estado. Atualmente atua no Programa de Pós-graduação em Integração Contemporânea da América Latina na UNILA.