Memória Pascal

Memória Pascal

Sérgio Dusilek

Em um curto espaço de uma semana nossa memória foi ativada com dois grandes eventos, os quais promoveram uma confusão de sentimentos. Falo dos 59 anos do Golpe Militar de 1964 e também da celebração da Páscoa. Ambos têm muito a dizer para nós cristãos.

O primeiro listado, o Golpe, nos remete a uma página vergonhosa da Igreja no Brasil. Sim, caro leitor, a conspurcação que você assistiu de camarote, desde 2018, entre cristãos e Bolsonaro, é mera reedição do que aconteceu em tempos idos. Sob o medo do alcunhado "fantasma do comunismo", católicos e evangélicos apoiaram o Golpe, para nossa vergonha histórica. Nem preciso dizer que houve resistência, que o apoio não foi uniforme. No entanto, tal como agora, as principais cadeiras, especialmente no meio evangélico, emprestaram sua reputação para isso (sei que é uma transgressão redacional terminar a oração assim, mas é proposital...).

O segundo fala da principal celebração judaico-cristã. Do ponto de vista do cristianismo, é celebrada a ressurreição de Jesus Cristo, narrativa esta recebida pela fé daqueles que creem. Só que tanto pelo prisma judaico, quanto sob a repaginação cristã, a Páscoa deveria nos fazer lembrar que regimes opressores como o egípcio e o romano usam seu poder bélico para restringir a liberdade, para espoliar e esfolar o povo. Sim, meu querido e querida, historicamente falando, quando o poder militar entra por uma porta, a liberdade sai por outra.

A Páscoa deveria fazer os evangélicos lembrarem que o conluio entre poder religioso e poderio militar romano condenou o Santo Jesus a cruz. Você pode até argumentar com a teologia do pecado e da substituição; entretanto a história dá conta que os operadores desta atrocidade foram o Sinédrio e a armada romana. Um Jesus que foi excomungado pelos religiosos e torturado pelos militares.

Que a Páscoa nos faça lembrar do potencial de violência que há no nosso semelhante quando imbuído do poder religioso ou bélico é o mínimo que nos é requerido. Que a Páscoa nos faça lembrar que a vida de Jesus foi tirada por uma violência do Estado, e ressignificada pela comunidade cristã primitiva que viu na morte violenta de Jesus o cumprimento do propósito redentivo de Deus é o resultado de um caminho. Que a Páscoa recorde aos evangélicos que transformar aquela execução em salvação foi ato de pura Graça divina, é uma santa "ambição".

Que a Páscoa, seja como êxodo do Egito, e como a ressurreição de Jesus: um novo caminho para a vida e para o viver. O anúncio de uma paz possível e de uma Graça desejável. De um novo começo, sem a opressão militar, suficientemente capaz para dizer: aquele Brasil dos anos de chumbo e da violência desmedida, NUNCA MAIS.

*Os textos publicados pelo Observatório Evangélico trazem a opinião e análise dos autores e não refletem, necessariamente, a visão dos demais curadores ou da equipe do site.


Pr. Dr. Sérgio Ricardo Gonçalves Dusilek é Mestre e Doutor em Ciência da Religião (UFJF/MG); Pastor na Igreja Batista Marapendi (RJ/RJ); Professor do Seminário Teológico Batista Carioca. Autor de Bíblia e Modernidade: A contribuição de Erich Auerbach para sua recepção e co-organizador de: Fundamentalismo Religioso Cristão: Olhares transdisciplinares; e O Oásis e o Deserto: Uma reflexão sobre a História, Identidade e os Princípios Batistas.