O aborto na imprensa tradicional e religiosa

O aborto na imprensa tradicional e religiosa

Depois de muitas tentativas de engravidar e de juntar as economias com o marido para uma fertilização in vitro, uma mulher de 45 anos consegue finalmente realizar seu sonho. Mas a alegria logo dá lugar à tristeza com a constatação de que o feto possui uma má-formação incompatível com a vida extrauterina. Munida de laudos médicos, a mulher consegue na justiça a autorização para interrupção legal da gravidez tão desejada. O tormento dela estava longe do fim.

No dia seguinte à autorização judicial, a mulher começou a ser assediada por representantes de uma organização não governamental que atua em “defesa da vida humana, sem exceções, fundamentada nos princípios da fraternidade e solidariedade cristã”, conforme está descrito no estatuto da entidade. Aparentemente, a “fraternidade e solidariedade cristã” são apenas para alguns, já que a mulher que viu seu sonho virar pesadelo não recebeu nenhum apoio ou empatia diante de seu problema. Em um dos contatos, a representante da ONG disse à mulher que ela seria responsável pela “morte da criança” se seguisse com a interrupção da gravidez.

As investidas continuaram apesar de a mulher ter bloqueado os números de telefone. Tamanha insistência levou a Defensoria Pública de São Paulo a acionar a Justiça pedindo o encerramento das atividades da ONG. “A situação enfrentada pela família já era grave do ponto de vista emocional. A conduta dos associados da entidade fez com que a requerente se sentisse extremamente culpada pelo exercício regular de um direito”, diz a denúncia da Defensoria que afirma, ainda, que o episódio causou na mulher uma “crise psicológica, deixando-a bastante fragilizada”.

O caso aconteceu em setembro de 2022 e foi revelado pela Folha de S.Paulo, no último dia 30 de julho e repetido por outros veículos de comunicação. A reportagem traz apenas o conteúdo da ação da Defensoria Pública, sem esclarecer como a ONG conseguiu as informações da autorização judicial para o aborto legal, além dos dados pessoais da mulher para passar a assediá-la. Não fica claro se a atuação da entidade é recorrente. Nem se a mulher conseguiu realizar o procedimento.

Reportagens sobre aborto na imprensa estão longe de ser adequadas, mesmo quando são veiculadas pela imprensa comercial. A cobertura da mídia em 2020 sobre o caso da menina negra de dez anos que ficou grávida após seguidos estupros praticado por um tio e as várias violações de direitos sofridos pela criança motivou pesquisadoras do Intervozes, entidade que atua pelo direito à comunicação, a publicar o Vozes Silenciadas – O corpo é nosso: a cobertura da mídia tradicional e da religiosa sobre os direitos sexuais e reprodutivos.

O Intervozes analisou as publicações do caso nos veículos Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, O Globo, Jornal Nacional, Jornal da Record, SBT Brasil, Agência Brasil, portal Canção Nova e portal Gospel Mais). Lembremos que a interrupção legal da gravidez é permitida no Brasil em apenas três casos: se a gestante corre risco de morte, se o feto é anencéfalo e se a gestação for resultado de estupro. Duas dessas três condicionantes eram claras no caso da menina grávida. Mas, para conseguir realizar o procedimento, a criança teve que viajar do Espírito Santo, onde morava, para Recife (PE).

As informações sobre o aborto, assim como dados da criança e do médico, foram vazados nas redes sociais pela ex-integrante do grupo feminista radical Femen e atual conservadora, Sara Giromini. Na porta do hospital onde o aborto foi feito, grupos pró-vida acusavam a menina e o médico de assassinato. Nada falaram sobre o tio que estuprava a sobrinha desde que ela tinha seis anos de idade.

O caso ganhou enorme atenção da imprensa. Mas, segundo as pesquisadoras, mesmo com a proximidade de Giromini com a então ministra das Mulheres, Damares Alves, a mídia, em geral, blindou o governo no caso. Nem quando as tentativas diretas de interferência de Damares vieram a público. “Percebemos como a ampla repercussão pode ser também um problema: um acontecimento específico e chocante recebe cobertura exaustiva, como um fato isolado, representando um risco inclusive de exposição da vítima e sua família, mesmo que suas identidades sejam preservadas; além disso, faltam contextualização, dados, aprofundamento nas causas e consequências do aborto, no impacto disso para mulheres, em especial negras e pobres. O fato isolado, em geral, não foi associado à violência sexual contra crianças e adolescentes, pauta de luta organizada de movimentos sociais e alvo de políticas públicas para erradicar essa violência no país”, diz o relatório da pesquisa.

Já na mídia religiosa, o caso foi tratado sem empatia com a vítima do estupro. De acordo com o relatório da pesquisa, no dia 17 de agosto de 2020, o portal católico Canção Nova publicou artigo de Dom Ricardo Hoepers em que o religioso diz que o caso da menina grávida seria “uma história que precisa ser esclarecida”. O site também publicou uma nota da Arquidiocese de Olinda e Recife em que Dom Antônio Fernando Saburido nomeia o procedimento como “assassinato”. Em outros textos, religiosos – todos homens – tratam os casos de aborto legalizado como normas que autorizam “as mães a matarem seus próprios filhos”.

O portal Gospel Mais seguiu a mesma linha. De acordo com as pesquisadoras, no dia 17 de agosto de 2020, o site publicou um texto com o título “Pastor chora ao comentar caso da menina de dez anos que engravidou após estupro”. A matéria relata que “um grupo de católicos que atuam na luta pela defesa da vida” fizeram um protesto contra o procedimento em frente ao hospital. Curiosamente não comenta sobre as intimidações que a menina e a equipe médica sofreram de grupos evangélicos.

Mesmo quando o portal tenta apresentar fontes com alguma empatia, as mulheres são sempre penalizadas ou acusadas. “Apesar da dor e do sofrimento, mantenho minha posição de ser contrário ao aborto em toda e qualquer situação. Entendo que um crime jamais justifica o outro, visto que aborto é assassinato”, comentou o pastor Renato Vargens, da Igreja Cristã da Aliança, de Niterói (RJ).

Já Silas Malafaia, pastor onipresente na mídia comercial e religiosa, ataca a todos sem exceção, inclusive o que ele chama de “politicamente correto gospel”. “Quero falar sobre essa menina, o aborto que foi feito, a safadeza, a bandidagem da mentira, para esconder da sociedade a verdade. Sabe por que os médicos no Espírito Santo não quiseram fazer o aborto? Porque a menina não corria nenhum risco de vida”. Volto a repetir: estamos falando de uma criança de dez anos, grávida por estupro.

O crime que ela sofreu por anos seguidos não importa. Como mulher, mesmo tendo apenas dez anos, jamais poderia ter rejeitado o destino da maternidade. E como o fez, ela sempre será acusada de morte, de assassinato, de atentado à vida do bebê, de infanticídio. Para mulheres, a “solidariedade e a fraternidade cristã” sempre serão seletivas.

* Os textos publicados pelo Observatório Evangélico trazem a opinião e análise dos autores e não refletem, necessariamente, a visão dos demais curadores ou da equipe do site.


Ana Trigo, jornalista, é mestra e doutora em Ciência da Religião pela PUC-SP. Pesquisadora acadêmica da cracolândia desde 2013, é autora da dissertação “Quando Deus entra, a droga sai”: ação da Missão Belém e Cristolândia na recuperação da dependência química na cracolândia de São Paulo; e da tese “Mulher é muito difícil” – o (des)amparo público e religioso das dependentes químicas na cracolândia de São Paulo. Faz parte dos grupos de pesquisa GREPO (Gênero, Religião e Política) e do GEPP (Grupo de Estudos Protestantismo e Pentecostalismo). Também integra o coletivo Mulheres EIG – Evangélicas pela Igualdade de Gênero de São Paulo.