Precisamos falar sobre o que acontece quando igrejas fecham

Precisamos falar sobre o que acontece quando igrejas fecham
Créditos: Ricardo Giusti

Durante toda a pandemia de Covid-19, um medo pairava entre muitos evangélicos do Brasil, o fechamento das igrejas. Esse medo não é novo. Ainda no processo de redemocratização boa parte dos constituintes evangélicos buscavam ampliar sua representação sob a justificativa de que católicos poderiam cercear a liberdade de culto. Atualmente temos 579,8 mil endereços religiosos[1], ou seja, de todas as religiões e em todo o Brasil. Em estudo sobre o tema, Vitor Araujo aponta que no Brasil temos aproximadamente 109 mil igrejas. Precisamos considerar que esses números não consideram que muitas igrejas nem se quer registram suas atividades para o fisco, outras simplesmente não dão baixa em seus registros. Nos EUA, segundo estudos anteriores a pandemia de Covid-19 do Lifeway Research[2], em 2019 mais de 3.000 igrejas foram abertas nos EUA, porém o número de igrejas fechadas foi de 4.500.

Mas o que esses dados nos ensinam? O que aprendemos com toda essa introdução? Apesar de não haver indícios de que comprovem o medo em relação ao fechamento das igrejas, existem outros motivos que podem levar ao fechamento de uma igreja. Muitas igrejas nascem e crescem de núcleos familiares, sendo assim, não é incomum que com o passar do tempo, os filhos, netos e até bisnetos dos fundadores assumam a liderança. Esse processo nem sempre é pacífico e feito com sucesso. Já vi comunidades que ao perderem seus líderes, ficaram completamente desestruturadas e por consequência foram se fragmentando.

Esse é um problema que está ligado entre outras coisas com a incapacidade de identificar e treinar novos líderes. Conversando com alguns pastores sobre o assunto, descobri que esse processo dura em torno de dez anos e envolvem disposição, reconhecimento da comunidade e sobretudo um ambiente que não dependa urgentemente desse processo.
Algumas disputas internas por poder podem gerar o fechamento ou a fragmentação de uma igreja. Ao perderem sua liderança histórica essas igrejas precisam se manter coesas lidando com disputas entre facções que podem radicalizar a disputa e em muitos casos judicializar a transição eclesiástica.

Por fim, a causa mais traumática para o fechamento de igrejas é o escândalo. Tive a tristeza de fazer parte e ver uma denominação pujante, viva, cheia de jovens, famílias e crianças, com templos e pastores espalhados por todo Brasil, simplesmente desaparecer, por conta de ações imorais relacionadas a casos extraconjugais e corrupção. A pergunta que se faz é: o que acontece depois disso? A maioria de seus membros buscaram novas igrejas, mas como não tinham identidade com os ritos do culto, ou não confiavam nos novos líderes, acabaram se desviando. Outros ficaram revoltados logo de cara, expuseram a situação e se afastaram permanentemente de qualquer igreja. Mas, um grupo pequeno ainda continuou apoiando os líderes. Muitos membros se sentem envergonhados, enganados e culpados por fazerem parte de um ministério que chegou a esse ponto. Esses desfechos causam traumas fazendo que muitos nem voltem a frequentar outra igreja, e passam a ser chamados de “desviados”. Outros, passam a frequentar cultos on-line ou igrejas alternativas, esses são os evangélicos não praticantes.

Talvez o medo dos evangélicos em relação ao fechamento das igrejas seja explicável. Essas comunidades são importantes para a criação e implementação de políticas públicas. Em um país que ainda não garantiu espaços públicos de cultura e lazer, essas comunidades desempenham um papel importante. Durante a pandemia de Covid-19, muitas dessas igrejas transformaram-se em centros de distribuição de mantimentos. Durkheim (1989), influente pensador do século passado, afirma que a sociedade sente a influência da religião quando os indivíduos se juntam e tomam consciência de si e de sua extensão, reunidos, com ações em comum. Isso significa que uma igreja não pode ser vista apenas como um grupo de pessoas que se reúne em dias específicos da semana e compartilham uma leitura considerada sagrada. Ali existe uma expressão da sociedade, que por meio de uma ação comum estabelece uma relação mútua com a comunidade ao seu entorno.

Outros motivos podem explicar o motivo que as igrejas fecham, pouca ou nenhuma identificação com a comunidade local, não compreensão de seu impacto na sociedade e ausência de comunicação com a sociedade. Você concorda ou discorda? Escreve para mim, publica sua crítica, elogio ou sugestão, e não esquece que precisamos falar de...

Referências:
ARAÚJO, Victor. “Surgimento, trajetória e expansão das Igrejas Evangélicas no território brasileiro ao longo do último século (1920-2019)”, Centro de Estudos da Metrópole, 2023.

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo, Ed. Paulinas, [1912] 1989.


[1] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2024-02/brasil-tem-mais-estabelecimentos-religiosos-que-escolas-e-hospitais#:~:text=Segundo detalhamento do Censo 2022,espíritas e terreiros%2C por exemplo, acesso em: 26/04/24.

[2] Disponível em: https://research.lifeway.com/2021/05/25/protestant-church-closures-outpace-openings-in-u-s/ acesso em 25/04/2024.

*Os textos publicados pelo Observatório Evangélico trazem a opinião e análise dos autores e não refletem, necessariamente, a visão dos demais curadores ou da equipe do site.


Vinícius Gomes é cristão, possui MBA em Gestão da Educação Pública,  Licenciatura em História e atualmente é Mestrando em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Estado de São Paulo. Dedica-se a pesquisar as relações entre os Bolsonaristas e os evangélicos, bem como sua inserção no mundo digital.