Progressistas mostram limitação para entender a religião como mediadora social

Progressistas mostram limitação para entender a religião como mediadora social

Essa semana uma figura conhecida do campo progressista fez uma postagem sobre uma experiência com um taxista. Ao entrar no carro, a rádio transmitia uma pregação em volume alto. O político/passageiro, incomodado, pediu ao motorista que desligasse pois não queria ouvir aquele conteúdo. Ao que o motorista, evangélico, respondeu: “Mas é a Palavra (de Deus)”. O político/passageiro, indignado, disse que estava pagando pela corrida e não para ouvir uma pregação sobre a qual não tinha nenhum interesse.

Soma-se a esse relato, outro episódio: uma entrevista concedida por uma dirigente de um partido de esquerda, foi categórica ao dizer que o governo não deve se relacionar com os evangélicos como grupo religioso. Seria preferível que essa relação fosse construída com o grupo social, ou vários grupos sociais, que compõem esse universo. Em determinado momento de sua fala, afirmou que há pastores que são mentirosos por afirmarem que a igreja está sendo perseguida pelo governo. Sua compreensão é a de que os partidos do campo progressista e o governo devem se esforçar para evidenciar as diversas políticas públicas que melhoram as condições de vida da população mais pobre.

Parece que domina no campo progressista a compreensão de que as relações sociais são dominadas pelo aspecto material. Nada muito distante da crítica de Marx sobre o capitalismo, considerando que a mercadoria havia se tornado a mediadora das relações sociais nesse sistema que se consolidava como predominante na Europa daquele tempo. Essa linha de interpretação da realidade foi ganhando novas interpretações, como a proposta de Althusser, sobre a representação da realidade ou mesmo Debord, referindo-se à imagem como grande mediadora.

Parece que há uma grande limitação do campo progressista em compreender que a religião ocupe, hoje, esse papel na vida de grande parte da população brasileira. Para muitas pessoas, não é a moradia, a escola ou o trabalho, mas os valores solidificados e transmitidos todas as semanas por suas congregações religiosas que constroem seus lações sociais mais importantes. Nelas essas pessoas encontraram uma nova vida, uma nova identidade, novos trabalhos, desenvolveram o gosto pela leitura em seus filhos, etc. A religião é parte importante da identidade dessas pessoas. Elas são cidadãs do Reino de Deus, antes de se verem como cidadãs desse mundo.

Diante disso, é um erro criticar pastores e líderes religiosos em público. Isso só afasta o campo progressista do grande público que diz querer conquistar. É a Palavra!

*Os textos publicados pelo Observatório Evangélico trazem a opinião e análise dos autores e não refletem, necessariamente, a visão dos demais curadores ou da equipe do site.


João Barros é evangélico há mais de 20 anos. Doutor em Filosofia e doutor em Ciências Sociais (UBA-AR), atualmente leciona no Programa de Pós-graduação em Integração Contemporânea da América Latina (PPGICAL) e no curso de Ciência Política e Sociologia da UNILA. É autor de Poder pastoral e cuidado de si em Foucault (2020) e Biopolítica no Brasil – uma ontologia do presente (2022). Também coordena o projeto Evangélicos e política na América Latina. Contato: joao.barros@unila.edu.br .