Um chamado ao arrependimento vindo das igrejas palestinas

Um chamado ao arrependimento vindo das igrejas palestinas
"Na ausência de toda esperança, clamamos nosso grito de esperança. Acreditamos em Deus, bom e justo. Acreditamos que a bondade de Deus finalmente triunfará sobre o mal do ódio e da morte que ainda persiste em nossa terra. Veremos aqui 'uma nova terra' e 'um novo ser humano', capaz de se erguer em espírito para amar cada um de seus irmãos e irmãs." (cf. Kairos Palestine, §10[1]).

Fiquei algumas semanas sem escrever nesta coluna. Faltou ânimo. Além disso, alojou-se em mim o sentimento de impotência e de falta de sentido em analisar o atual cenário religioso evangélico no Brasil, enquanto mais de 17 mil pessoas foram exterminadas na cidade de Gaza, sendo que destas, mais de 7 mil crianças. Na antiguidade, Gaza era conhecida como a “Atenas palestina” e foi um centro das ciências da Retórica e literatura clássica, além de um importante centro econômico, cultural e intelectual.

Olhar para a parte autocentrada, midiática e, por vezes histérica, presença evangélica no Brasil parece dar atenção demais a quem não merece atenção por ser incapaz de se compadecer do sofrimento alheio. É inconcebível, diante do genocídio palestino, quem se diz evangélico seguir portando bandeiras de Israel, enquanto anuncia que o Armagedon se aproxima. Se a condição para Jesus voltar é o extermínio de um povo, melhor que não volte, porque a redenção será para quem não merece ser redimido.

Na próxima semana é Natal. Pensei muito no meu silêncio e enfrentei a falta de ânimo para escrever sobre este Brasil supostamente quase evangélico. Ler e assistir as noticiais que nos chegam de Gaza coloca no ar a pergunta sobre que natal iremos celebrar?

Segundo os relatos bíblicos, José e Maria, após Jesus nascer, foram obrigadas a se refugiar no Egito, porque Herodes decretou um infanticídio, temendo perder seu reinado. O decreto herodiano mandava assassinar meninos bebês recém nascidos e de até dois anos. Imaginava, que com isso, poderia se livrar da ameaça de ser deposto por um novo rei.

É inevitável não relacionar a história perversa de Herodes com os assassinatos das crianças em Gaza. Maternidades bombardeadas, nas redes sociais não faltam vídeos de crianças em pânico, outras ensanguentadas. Mais recentemente surgiram imagens de palestinos seminus sentados, em meio às ruínas da cidade destruída, expressão máxima da destruição da dignidade humana. A comparação com os campos nazistas de concentração é imediata.

As imagens dos 28 bebes prematuros que foram deslocados de Gaza para o Egito atualizam a história do nascimento de Jesus e nos fazem concluir que, se fosse hoje, Herodes teria vencido, pois Jesus não sobreviveria.

Segundo a organização Juzoor, parceira da Oxfam em Gaza, por causa dos medos e traumas enfrentados pelas mães, o número de nascimentos prematuros aumentou entre 25 a 30% desde o início da guerra. Esta mesma organização conta que existem treze abrigos para pessoas deslocadas no norte de Gaza. Em cada um destes abrigos morreu um bebê prematuro por dia.

É fundamental relacionar a história destas mães e bebes com a carta divulgada por organizações cristãs palestinas. O título da carta é “Um chamado ao arrependimento - Uma Carta Aberta dos Cristãos Palestinos aos Líderes e Teólogos da Igreja Ocidental”[2]. Lamentavelmente, a carta teve pouca repercussão no Brasil, talvez porque a teologia sionista cristã, neste momento, fale mais alto.

Nesta carta, pessoas cristãs palestinas compartilham o seu luto e nos contam sobre as mortes de pessoas amigas e de familiares no bombardeio israelense contra civis inocentes, em 19 de outubro de 2023, incluindo pessoas cristãs que estavam se refugiando na histórica Igreja Ortodoxa Grega de São Porfírio.

Em meio ao luto, que não cessa, porque desde o dia 08 de outubro, estão perdendo amigos e familiares, procurando consolar e ser consolados, eles expressam o seu horror em relação à forma como pessoas cristãs ocidentais têm oferecido apoio incondicional à guerra de Israel contra o povo da Palestina.

Como forma de lamento, cristãos palestinos desafiam os teólogos e líderes de igrejas ocidentais a se arrependerem do apoio acrítico a Israel, chamado este que nos remete ao profeta Isaías e seus “tristes ais”: “Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito”. (Is 5. 21)

As pessoas cristãs palestinas em luto nos dizem que as ações e os padrões duplos de alguns líderes cristãos prejudicaram gravemente seu testemunho cristão e distorceram severamente seu julgamento moral com relação à situação palestina.

Estes irmãos e irmãs cristãos se dizem estarrecidos diante da recusa de parte dos cristãos ocidentais em condenar o genocídio em Gaza e em seguir justificando a ocupação israelense na Palestina. Eles dizem o quanto estão chocados com a forma como alguns cristãos legitimam os contínuos ataques indiscriminados de Israel a Gaza. São ataques que arrasaram bairros inteiros e provocaram o deslocamento forçado de mais de um milhão de palestinos. Eles nos contam que os militares israelenses utilizam o fósforo branco contra civis, o corte de água, combustível e eletricidade. Soldados israelenses bombardeiam escolas, hospitais e locais de culto.

Espero que ainda esteja na memória de quem lê este texto o hediondo massacre no Hospital Anglicano-Batista de Al-Ahli e o bombardeio da Igreja Ortodoxa Grega de São Porfírio, que dizimou famílias cristãs palestinas inteiras.

A dor é tamanha, que as celebrações de Natal na cidade de Belém, na Cisjordânia, foram canceladas. O artesão Jack Giacaman, pertence à terceira geração proprietária da “Christmas House”, na cidade de Belém. GIacaman que esculpe, junto com outros pequenos artesãos, presépios em madeira de oliveira, camelos e cruzes diz que este é o pior Natal que ele já viveu. Este senhor conta que em casa, a sua família tem dificuldades em sentir o espírito de natal. Ele diz que as suas filhas adolescentes disseram que não têm vontade de montar a árvore de Natal. Ele ficou triste e, por isso, a única coisa que fez foi pôr o presépio sobre a mesa[3].

Não bastasse a dor da guerra, este final de semana lemos que Israel estaria loteando terrenos para a construção de casas em futuros assentamentos ilegais em Gaza. A propaganda anuncia: "Uma casa na praia não é um sonho.” É provável que alguns crentes sionistas irão desejar uma destas casas, sem se importar que seus alicerces serão edificados em terras manchadas por sangue de pessoas inocentes.

Celebrar o Natal em 2023, deveria nos comprometer com a denúncia do apartheid palestino, com o engajamento em ações concretas para o fim do genocídio, como o boicote aos produtos israelenses e com exigir que os senhores da guerra de Israel sejam denunciados e julgados pelo Tribunal Penal Internacional.

Frente a este cenário, o que menos importa é o que pretensas igrejas e líderes evangélicos midiáticos falam, porque seus discursos e lobbys são a expressão máxima do que não é a fé cristã. Estes homens autointitulados pastores evangélicos, apóstolos e bispos, ao apoiarem o genocídio palestino e ao defenderem Israel e seu exército jogam escombros de guerra na manjedoura de Belém. Eles representam a face mais cruel da desumanização.

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[1] https://www.kairospalestine.ps/images/kairos_Palestina_Portoguese.pdf

[2] https://www.conic.org.br/portal/conic/noticias/carta-aberta-dos-cristaos-palestinos-aos-lideres-e-teologos-da-igreja-ocidental

[3] https://www.npr.org/2023/12/16/1219245873/bethlehem-christmas-gaza-israel

*Os textos publicados pelo Observatório Evangélico trazem a opinião e análise dos autores e não refletem, necessariamente, a visão dos demais curadores ou da equipe do site


Romi Bencke é pastora da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, graduada em Teologia pelas Faculdades EST (São Leopoldo), mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião da UFJF. Em 2013 recebeu o prêmio de Direitos Humanos na categoria Promoção e Respeito à Diversidade Religiosa. Atualmente ocupa a função de secretária geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) e integra o grupo coordenador do Fórum Ecumênico ACT Brasil.